Inter
Pra mim, esse foi o jogo que vai manter o Inter na Série A do Brasileirão
- Inter 3×0 Botafogo no Beira-Rio. E, para mim, esse pode ter sido o jogo da virada colorada no Campeonato Brasileiro. Não tenho bola de cristal e obviamente ainda faltam rodadas, mas o cenário mudou bastante. Eduardo Baptista estreou vencendo o Corinthians, depois empatou o Grenal, perdeu para o Mirassol num jogo completamente condicionado por erros individuais e agora conseguiu uma vitória soberana contra aquele que, teoricamente, era o adversário mais difícil da sequência em casa. Foi um 3 a 0 indiscutível, com estratégia funcionando, jogadores se entregando demais e mais de 33 mil colorados no estádio mesmo com chuva e mau tempo. Hoje, olhando a tendência, o Inter está muito mais perto de permanecer na Série A do que estava há poucas semanas.
- E essa vitória ganha ainda mais peso porque o Inter entrou desfalcado. Mercado, Villagra e Vitinho estavam suspensos. Alan Patrick voltava de lesão. Anthoni ainda não estava 100%. Mesmo assim, Eduardo Baptista tomou algumas decisões importantes e acertou. A primeira foi manter Kauan Jesus no gol. Anthoni até poderia ser forçado a voltar, mas o treinador olhou para o garoto que tinha feito uma ótima partida contra o Mirassol e manteve a confiança. A segunda foi deixar Félix Torres completamente fora. Não foi suspensão, foi escolha técnica. Nem no banco ficou. E isso também é mérito do treinador: quando uma coisa não está funcionando, não precisa inventar uma justificativa mirabolante. Muda.
- Dentro de campo, o que mais impressionou foi a entrega. E futebol não pode ser resumido apenas a raça, vontade e intensidade, porque existe tática, qualidade e organização. Só que também existe isso. E contra o Botafogo o Inter parecia estar brigando por um prato de comida. Os jogadores correram, pressionaram, voltaram, disputaram cada bola e mostraram um comprometimento absurdo. Então, se em algum outro jogo as coisas derem errado, não dá simplesmente para cair naquela frase fácil de que “faltou raça”. Esse grupo mostrou contra o Botafogo que consegue se entregar completamente.
- Ronaldo foi um dos grandes exemplos. Existia a dúvida se ele jogaria de zagueiro com Bruno Gomes no meio ou se seria o contrário. Eduardo Baptista manteve Bruno Gomes na defesa e colocou Ronaldo como primeiro volante. E ele fez uma baita partida. Muito seguro, preenchendo espaço, dando equilíbrio e ajudando o Inter a controlar o meio-campo. O Colorado já era melhor antes de abrir o placar. Bernabei teve algumas dificuldades no primeiro tempo, mas cresceu muito depois. Alan Patrick voltou a organizar o time, Alerrandro novamente trabalhou bastante e praticamente todo mundo entrou no jogo.
- Kauan Jesus merece um capítulo à parte. Até a rodada anterior, o goleiro de 23 anos nunca tinha jogado profissionalmente pelo Inter. Entrou numa fria contra o Mirassol depois da expulsão de Mateus Cunha, foi bem e ganhou a titularidade. Contra o Botafogo, confirmou. Fez duas grandes defesas no primeiro tempo e outra espetacular na segunda etapa. No final, saiu emocionado e precisou ser consolado por Maripán. É um garoto vivendo tudo isso praticamente de uma vez. E olha a ironia: o Inter passou meses procurando solução no gol, utilizou diferentes nomes e talvez tenha encontrado dentro de casa um goleiro que merecia oportunidade há mais tempo.
- Mas, para mim, o grande personagem dessa reação é Eduardo Baptista. E eu faço questão de reconhecer isso porque critiquei muito a contratação. Quando anunciaram um treinador que vinha do Criciúma, oscilando na Série B, eu achei uma escolha extremamente arriscada. Só que o começo dele é impressionante pela quantidade de acertos. Não é apenas resultado. Tem ideia, tem treinamento e tem coerência. O Inter parece um time treinado.
- O primeiro gol mostra exatamente isso. Na apresentação, Eduardo explicou que gosta dos jogadores mais adiantados entrando por dentro e dos alas dando profundidade. Também falou que, quando um lateral cruza, gosta de ver o outro entrando na área. O que acontece contra o Botafogo? Aguirre cruza de um lado e Matheus Bahia aparece do outro para marcar. É literalmente uma jogada que o treinador explicou quando chegou.
- O segundo gol também tem trabalho. Juninho aparece na bola parada e faz o gol. E já existia a informação de que o Inter treinou muito escanteio durante a semana. Bola parada foi um dos pontos que Eduardo mais destacou na sua chegada e agora começa a aparecer dentro dos jogos. Parece óbvio dizer que treinador precisa treinar bola parada, mas nem sempre o óbvio é feito.
- E o terceiro gol talvez seja a melhor representação do jeito de jogar. Sem a bola, Alerrandro recua por um lado, Bernabei fecha pelo outro e Alan Patrick fica centralizado. Quando o Inter recupera, Alan vira aquele jogador que pisa na bola e espera os outros passarem à frente. Foi exatamente isso. Alan Patrick recebe, lança Alerrandro, o centroavante toca para Bernabei e ele fecha a jogada para fazer o terceiro.
- Isso é jogada treinada. Isso é ideia de treinador.
- O Inter hoje tem um jeito de jogar. Tem comportamentos repetidos, sabe como se defender, sabe como sair e sabe o que procura quando recupera a bola. Não significa que virou um timaço ou que não vai perder mais. O elenco continua tendo limitações e vai continuar cometendo erros. Mas existe uma diferença enorme entre um time limitado que sabe o que fazer e um time limitado completamente perdido.
- A vitória sobre o Botafogo carimba aquilo que já dava para perceber contra Corinthians, Grêmio e até mesmo na derrota para o Mirassol: tem alguma coisa acontecendo nesse time. Eduardo Baptista está conseguindo organizar o Inter, recuperar jogadores e encontrar soluções com aquilo que tem disponível.
- E por isso eu trato esse 3 a 0 como um jogo que pode mudar a temporada.
- O Inter ainda precisa pontuar, ainda tem trabalho pela frente e não pode achar que está salvo. Mas, depois dessa atuação, eu olho para Coritiba, Vitória e Bragantino no Beira-Rio e vejo partidas perfeitamente vencíveis.
- Para mim, a chave virou.
- E, se continuar jogando com essa organização e essa entrega, o Internacional tem tudo para permanecer na Série A.
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