Grêmio
As razões que tiraram Arthur e Cebolinha do Grêmio
- Arthur e Everton Cebolinha viraram pauta novamente entre os torcedores do Grêmio. E dá para entender. O gremista olha para o time atual, vê Enamorado perdendo chances, Tetê sem entregar aquilo que se esperava e naturalmente pergunta: como o Grêmio não conseguiu ficar com Arthur e também deixou Cebolinha ir para o Santos? Pois existe uma sequência de bastidores que ajuda a explicar isso. E até o fato de Luís Castro ser o treinador naquele momento, e não Renato Portaluppi, teve influência direta nas duas situações.
- Vamos começar pelo Arthur. Ele não era exatamente o tipo de meio-campista que Luís Castro mais gostava para o seu modelo. Isso não significa que Castro não reconhecesse a qualidade do jogador. Tanto reconhecia que, em determinado momento, utilizou Arthur mesmo sem ele estar 100% fisicamente porque entendia que, entre as opções disponíveis, ainda era um dos melhores do elenco. Só que, conceitualmente, não era o meio-campista ideal para aquilo que o treinador português queria montar.
- E aí entrou a questão financeira. Arthur pediu um valor muito alto para permanecer, na casa dos R$ 2,5 milhões mensais, enquanto o Grêmio trabalhava com uma proposta por volta de R$ 1,5 milhão. A diferença foi considerada grande demais e a própria direção decidiu não prolongar a negociação. Esse é um ponto importante: não foi simplesmente Arthur recusando o Grêmio. O clube também tomou a decisão de parar de negociar porque entendeu que não chegaria naquele valor.
- Só que depois o mercado mudou. Arthur demorou para resolver sua situação com a Juventus, percebeu que não encontraria facilmente alguém disposto a pagar aquilo que inicialmente pedia e acabou fechando com o Santos por um contrato curto, apenas até o final da temporada, ganhando aproximadamente R$ 1,7 milhão por mês. Ou seja, muito mais próximo da realidade que o Grêmio já trabalhava. E é aí que bate aquela sensação de que o clube poderia ter insistido um pouco mais. Poderia ter dito: “Arthur, vamos até dezembro, abaixa um pouco, depois a gente vê”. O Santos fez isso.
- E a troca de treinador deixa a história ainda mais curiosa. O jogador que encaixava muito mais no modelo de Luís Castro era Krovinović. Ele funcionava como aquele meio-campista de ida e volta, ajudava na marcação, saía para o jogo e atuava ao lado de Villasanti sem necessariamente ser um camisa 10 clássico. Para Castro, fazia sentido. Só que Renato Portaluppi chegou e a avaliação já é diferente. Renato gostaria de um meia que atacasse mais a área, fosse mais agudo e aparecesse com mais frequência perto do gol. E esse não é exatamente o principal atributo de Krovinović.
- Então olha como o futebol é maluco. Se Renato estivesse aqui antes, provavelmente Arthur teria muito mais força para permanecer e talvez Krovinović nem fosse contratado. Como Luís Castro era o treinador, Arthur saiu e Krovinović chegou. Só que o treinador mudou e agora o jogador que veio para encaixar naquele sistema já não possui exatamente as características preferidas pelo novo comandante.
- Com Everton Cebolinha existe algo parecido, embora Luís Castro também quisesse o atacante. A diferença é que Renato provavelmente faria ainda mais pressão para conseguir a contratação. Cebolinha esperou pelo Grêmio, deu prioridade ao clube e chegou a indicar ao Santos que, naquele momento, sua preferência no Brasil era voltar para Porto Alegre. Houve negociação real com a direção gremista.
- A operação poderia ter sido relativamente curta. Cebolinha aceitaria um contrato apenas até o final do ano e o pacote total para essa reta final ficaria na casa de R$ 6 milhões, aproximadamente €1 milhão. E isso aconteceu praticamente no mesmo período em que o Grêmio vendeu Gabriel Mec ao Porto numa operação total de €11 milhões. Nem todo esse dinheiro ficou com o Grêmio, evidentemente, mas a discussão interna era bastante simples: vendeu um jogador por uma quantia enorme e poderia utilizar uma pequena parte para reforçar imediatamente um time que já brigava contra o rebaixamento.
- Só que naquele momento também começaram a explodir cobranças públicas contra o Grêmio. Vitória, Cuiabá e outros credores passaram a reclamar de dívidas, enquanto o clube precisava organizar pagamentos e buscar parcelamentos de valores. Havia também compromissos com empresários, entre eles Juliano Bertolucci, além de outras pendências que a direção precisava resolver. Odorico Roman, com um perfil muito conservador na parte financeira, olhou para o cenário e decidiu que não faria mais uma despesa desse tamanho por Cebolinha.
- Luís Castro aceitou. E aqui está outro ponto em que a presença de Renato talvez mudasse a história. Eu tenho dificuldade de imaginar Renato simplesmente ouvindo que não teria Cebolinha e dizendo “tudo bem”. Provavelmente bateria na porta do presidente, insistiria, pediria o jogador e faria pressão interna para encontrar uma solução. Não quer dizer que conseguiria, mas certamente transformaria a contratação numa prioridade maior.
- No fim, Cebolinha foi para o Santos num contrato curto e hoje faz parte de um time que conseguiu melhorar com outras contratações. Enquanto isso, o Grêmio segue tentando encontrar soluções com jogadores como Enamorado e Tetê, que ainda não entregaram o rendimento esperado. E naturalmente o torcedor olha para isso e pensa no que poderia ter acontecido.
- Não existe como voltar no tempo e montar o elenco depois de saber o resultado. Na época, existiam razões financeiras e técnicas para as decisões. Luís Castro queria determinadas características, Odorico precisava resolver dívidas e o clube escolheu não esticar algumas negociações. Só que o futebol muda rápido demais. Castro saiu, Renato chegou e aquilo que fazia sentido para um treinador já não necessariamente faz para o outro.
- É por isso que Arthur e Cebolinha voltam tanto à discussão.
- Hoje, com Renato, provavelmente Arthur encaixaria mais do que Krovinović no modelo que ele imagina. E Cebolinha certamente seria uma alternativa muito mais consolidada para uma ponta que hoje ainda traz enormes dúvidas.
- Mas as decisões foram tomadas em outro contexto.
- E agora o Grêmio precisa viver com elas.
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